quinta-feira, 31 de maio de 2012

A outra janela

A menina debruçada na janela trazia nos olhos grossas lágrimas e o peito oprimido pelo sentimento de dor causado pela morte de seu cão de estimação. 
Com pesar observava atenta o jardineiro enterrar o corpo do amigo de tantas brincadeiras. 
A cada pá de terra jogada sobre o animal, sentia como se sua felicidade estivesse sendo soterrada também. 
O avô que observava a neta, aproximou-se e a envolveu em um abraço e falou-lhe com serenidade: 
- Triste a cena, não é verdade? 
A netinha ficou ainda mais triste e as lágrimas rolaram em abundância. 
No entanto, o avô que desejava confortá-la chamou-lhe a atenção para outra realidade. 
Tomou-a pela mão e a conduziu para uma janela localizada no lado oposto da ampla sala. 
Abriu as cortinas e permitiu-lhe que visse o jardim florido a sua frente e perguntou-lhe carinhosamente: 
- Está vendo aquele pé de rosas amarelas bem ali a frente? 
- Lembra que você me ajudou a plantá-lo? 
- Foi em um dia de sol como hoje que nós dois o plantamos. Era apenas um pequeno galho cheio de espinhos e hoje veja como está lindo, carregado de flores perfumadas e botões como promessa de novas rosas.
A menina enxugou as lágrimas que ainda teimavam em permanecer em suas faces e abriu um largo sorriso mostrando as abelhas que pousavam sobre as flores e as borboletas que faziam festa entre umas e outras das tantas rosas de variados matizes que enfeitavam o jardim.
O avô, satisfeito por tê-la ajudado a superar o momento de dor falou-lhe com afeto: 
- Veja, minha filha. A vida nos oferece sempre várias janelas. 
Quando a paisagem de uma delas nos causa tristeza sem que possamos alterar o quadro, voltamo-nos para outra e certamente nos deparamos com uma paisagem diferente. 
Tantos são os momentos de nossa existência, tantas as oportunidades de aprendizado que nos visitam no dia-a-dia que não vale a pena sofrer diante de quadros que não podemos alterar. 
São experiências valiosas da vida, das quais devemos tirar lições oportunas sem nos deixar tragar pelo desespero e revolta que só infelicitam. 
A nossa visão do mundo é muito limitada. 
Se hoje você está a observar um quadro desolador, lembre-se de que existem tantas outras janelas, com paisagens repletas de promessas de melhores dias. 
Não se permita contemplar a janela da dor. 
Aproveite a lição e siga em frente com ânimo e disposição. 
Agindo assim, o gosto amargo do sofrimento logo cede lugar ao sabor agradável de viver.

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